Configuração de Redes

Configuração e verificação de switch/roteador, VLANs, trunks, inter-VLAN, roteamento, ACL, NAT e redundância.

Por Fábio Linhares • Instituto Infnet

Contexto de laboratório (assumido): cenário típico com um ou mais switches L2 (VLANs), um roteador (ou switch L3) para roteamento inter-VLAN, e um roteador de borda (ou a mesma caixa) para saída Internet/NAT. Ajuste interfaces, IPs e números de VLAN ao seu diagrama.

Para manter tudo concreto, vou usar um mini–plano de rede que você pode reaproveitar em todas as questões:

VLAN 10 = USERS (192.168.10.0/24)
VLAN 20 = VOICE (192.168.20.0/24)
VLAN 30 = SERVERS (192.168.30.0/24)
VLAN 99 = MGMT/NATIVE (192.168.99.0/24)

Topologia:
• SW1 e SW2 ligados por trunk
• R1 ligado ao SW1 por trunk (router-on-a-stick) para inter-VLAN
Boa prática: prefira configurações explícitas (ex.: trunk/access “hard-coded” e DTP desativado), senhas seguras, SSH (não Telnet), e verificação por evidência (show commands + testes de conectividade).

Quem conseguir resolver, de ponta a ponta, as 20 questões a seguir não terá apenas "decorado comandos". Terá desenvolvido um conjunto de competências operacionais e cognitivas que se aproximam bastante do que se exige de alguém capaz de subir uma rede do zero, segmentar corretamente, habilitar serviços, controlar tráfego, e manter disponibilidade — tudo com disciplina de validação e diagnóstico.

O primeiro desafio que você enfrentará é transformar um conjunto de dispositivos "crus" (switch/roteador saídos de fábrica) em infraestrutura utilizável: identidade, segurança mínima, acesso remoto confiável e gestão por IP. Isso força você a pensar como operador: não basta "funcionar", precisa ser administrável, auditável e previsível.

Em seguida, o terreno fica mais interessante: você vai entrar no núcleo da comutação Ethernet e aprender a enxergar uma rede L2 como ela realmente é. Você vai dominar o comportamento do switch (aprendizado de MAC, flooding, tabelas CAM), entender de verdade a diferença entre colisão e broadcast (e por que isso importa), e aplicar VLANs como ferramenta de segmentação — não como "mágica", mas como engenharia: separar domínios de difusão, reduzir ruído, estruturar a rede por função e preparar o caminho para políticas de segurança.

Depois vem o "pulo do gato" que separa o iniciante do operador: fazer essa segmentação funcionar em múltiplos switches e atravessar links entre equipamentos com trunking 802.1Q, lidando com detalhes que derrubam redes reais (VLAN nativa, allowed VLANs, mismatch e sintomas). Se você completar essa parte, você ganha um tipo raro de habilidade: olhar para um problema e dizer "isso é L2" ou "isso já é L3" com base em evidência, não em palpite.

A etapa seguinte exige mentalidade de roteador: você vai construir uma linha de base de roteamento e entender como o tráfego realmente sai de uma VLAN e chega em outra. Inter-VLAN routing (SVI ou router-on-a-stick) deixa de ser "receita de bolo" e vira uma decisão de design com trade-offs: onde colocar o gateway, como validar caminhos, e como interpretar tabela de rotas e estado de interfaces como se fossem instrumentos de painel.

A partir daí, as questões passam a testar maturidade operacional. Você vai trabalhar com serviços e controles que aparecem em rede de verdade: roteamento entre roteadores, controle inter-segmentos por ACL (com ordem, direção e deny implícito), NAT/port forwarding (com implicações de segurança), e, finalmente, redundância com FHRP (HSRP/VRRP), onde "funciona" não é suficiente — precisa continuar funcionando quando um equipamento falha.

Se você consegue resolver tudo isso, o que você domina de fato?

Você domina fluência operacional em CLI: não só configurar, mas ler show como evidência e usar validações (ping/traceroute/tabelas) para provar que a rede está correta. Você desenvolve raciocínio causal: prever efeitos de uma mudança (por exemplo, o que acontece se eu trocar VLAN nativa, se eu restringir allowed VLANs, se eu aplicar ACL inbound em tal interface). Você ganha disciplina de troubleshooting: isolar variáveis, testar hipóteses mínimas, identificar escopo do problema e convergir sem "tentativa e erro" cega.

Em termos de "skills/qualidades" bem concretas, o leitor que vence esse conjunto passa a ter:

Capacidade de construir e padronizar configurações (baseline seguro e replicável), com noção de risco e boas práticas. Capacidade de segmentar redes com intenção (VLANs como arquitetura, não como etiqueta). Capacidade de operar trunks e ambientes multi-switch sem cair em armadilhas clássicas. Capacidade de implementar L3 funcional (inter-VLAN, roteamento entre roteadores) e validar o caminho fim a fim. Capacidade de aplicar políticas de controle de tráfego com precisão (ACLs e NAT) sem se auto-bloquear. Capacidade de desenhar alta disponibilidade no nível do gateway (FHRP) e testar failover de forma controlada. E, talvez o mais valioso, a capacidade de documentar e justificar: você sabe explicar o porquê das escolhas, quais evidências comprovam o resultado, e como alguém repetiria isso em outro ambiente.

Em outras palavras: adiante você vai enfrentar o tipo de desafio que redes reais colocam no seu caminho — inconsistências sutis, comportamentos emergentes de L2/L3, e a necessidade de provar que está certo. Se você resolver tudo, você não só "passa no conteúdo"; você se torna alguém que consegue pegar uma rede pequena/média, estruturar, segmentar, habilitar serviços, impor políticas e manter disponibilidade com método. Isso é exatamente a fronteira entre "estudou CCNA" e "opera rede de verdade".

📍 Mapa do Caminho: de Baseline a Redundância
ETAPA 01
Baseline e Gestão Segura
Colocar roteador e switch em um estado padronizado e administrável, com segurança mínima.
  • Hostname, senhas/usuários criptografados
  • Desabilitar DNS lookup, banner
  • SSH em vez de Telnet
  • IP de gerenciamento (SVI)
  • Gateway de gerenciamento
  • Salvar config, validar
O equipamento deixa de ser uma "caixa misteriosa" e vira um componente gerenciado.
ETAPA 02
VLAN e Trunking
Dominar a segmentação L2 e transporte de VLANs entre switches.
  • VLAN: separar domínios de broadcast
  • Porta access: host em uma VLAN
  • Trunk 802.1Q: múltiplas VLANs no uplink
  • VLAN nativa: sem tag no trunk
  • Verify: show vlan, show interfaces trunk
Você monta uma rede multi-switch onde cada grupo está na sua VLAN, com transporte correto.
ETAPA 03
Inter-VLAN Routing
Fazer o tráfego sair do L2 e ser roteado entre VLANs via Router-on-a-Stick.
  • Subinterfaces (g0/0.10, g0/0.20…)
  • Encapsulation dot1Q
  • IP por VLAN (gateway)
  • Testar conexão entre VLANs
  • Validar tabelas de rota
PCs em VLAN 10 falam com servidores em VLAN 30 via roteamento L3, transparentemente.
ETAPA 04
OSPF (Roteamento Dinâmico)
Roteamento automático entre roteadores em vez de criar tudo manually.
  • Formar vizinhança OSPF
  • Anunciar redes (network statements)
  • Ver rotas dinâmicas na tabela
  • Validar convergência
  • Passive interfaces, áreas
A rede escala melhor, você entende seleção de caminho e propagação de rotas de forma automática.
ETAPA 05
ACL (Controle de Tráfego)
Controlar tráfego com regras explícitas (permit/deny), aplicada entre VLANs ou na borda.
  • Direção (in/out), ordem das regras
  • Deny implícito ao final
  • Testar para não se auto-bloquear
  • ACL estendida para L3
  • Validar com show access-lists
Segmentação vira "permitir apenas o necessário", com política explícita e auditável.
ETAPA 06
NAT e Port Forwarding
Tradução de endereços/portas: permitir saída para internet ou publicar serviço interno.
  • Marcar interfaces (inside/outside)
  • PAT para saída da LAN
  • Port forwarding: publicar serviços
  • Proteger com ACL
  • Validar translações (show ip nat trans)
Você entende como tráfego atravessa fronteiras (LAN↔WAN) e impacto no diagnóstico.
ETAPA 07
Redundância (HSRP/VRRP)
Alta disponibilidade no gateway: dois equipamentos compartilham um IP virtual.
  • IP virtual (HSRP/VRRP)
  • Ativo e Standby
  • Failover automático
  • Tracking de rotas/links
  • Testar switchover controlado
Você elimina ponto único de falha no gateway, a rede não "morre" em caso de falha.
TRANSVERSAL
Validação e Diagnóstico
O que separa "seguir receita" de "saber operar".
  • Comandos de verificação (show, ping, traceroute)
  • Expectativa: o que deve aparecer
  • Troubleshooting por camadas: L1→L2→L3→serviços
  • Coletar evidência, formular hipóteses
  • Testar e corrigir com método
Quando algo quebra, você não fica no misticismo: você coleta evidência, testa e resolve.